Olá pessoal, hoje resolvi escrever um pouco sobre percepções acerca das vivências dos profissionais da saúde que estão atuando na linha de frente nesse momento de pandemia. Então se você é profissional da saúde ou conhece algum, por favor reflita comigo e compartilhe (pode mandar seus comentários e sugestões também).

Quero começar ressaltando que estamos vivendo um cenário de crise mundial, que afeta a todos e a cada um de nós de forma singular, ou seja, traz uma dor coletiva na medida em que todos são afetados e um sofrimento individual, específico, percebido de maneira diferente dentro da realidade de cada um. Aqui é importante refletir sobre quem sou eu nesse momento e como esse cenário me afeta.

Outro ponto importante é entender que ninguém estava preparado para lidar com essa doença, logo, não existem pareceres fechados e definitivos, de eficácia comprovada. As informações mudam diariamente e as descobertas também são feitas a cada instante. Isso traz uma incerteza, uma insegurança com relação aos protocolos de atendimento adotados, utilização de instrumentos, medicamentos e as posturas que devem ser tomadas diante dos outros profissionais, familiares e pacientes.

Toda essa incerteza nos coloca numa situação de medo e mobiliza sentimentos que devem ser identificados o mais rápido possível para que sejam elaborados e dimensionados na sua devida proporção. Essa urgência sentida, envolve reações psicológicas de medo, ansiedade, ressentimentos, abalos na autonomia, sensações de estranheza, alteração na autoestima, além das reações três Ds (desespero, desamparo e desesperança) (SBP, 2020). Devemos ficar atentos a expressões desses sentimentos, pois uma vez que a pessoa entre nesse estado, ela pode ser tomada por esse clima e ir contagiando a todos, gerando uma grande instabilidade emocional, que por sua vez, altera a percepção da realidade, a tomada de atitudes e reações da pessoa e de toda uma equipe, trazendo consequência mais prejudiciais do que benéficas para si e para os outros.

Além disso, muitos profissionais foram afastados por estarem no grupo de risco ou por apresentarem sintomas, podendo e gerar uma sobrecarga de trabalho e um aumento no nível de estresse. Nesse contexto são percebidas reações de exaustão, apatia, irritabilidade, impaciência, agressividade, desânimo, depressão, preocupação excessiva, incapacidade para relaxar, insônia, perda da iniciativa, dores musculares, ansiedade, continua dificuldade de atenção, concentração e memória, tendência ao isolamento, distanciamento, desumanização, prejuízo nas relações profissionais, familiares e sociais (SBP, 2020).

Outra situação estressante é que devido à dificuldade da identificação precoce dos pacientes há a exposição maior ao contágio e, ainda existe a falta de estrutura e equipamentos de proteção nos hospitais, dificultando que  tomem as precauções necessárias, isso coloca esses profissionais numa situação mais exposta à infecção e à propagação do vírus para outras pessoas. Também é emocionalmente demandante para os profissionais de saúde terem que cuidar de seus colegas e vê-los, em algumas circunstâncias, se tornarem pacientes. Isso aumenta o estresse de trabalhar durante um surto de rápida evolução, em especial, quando a doença causa ansiedade e provoca mobilização na população geral (SBP, 2020).

Ainda há a estigmatização, quando percebemos o profissional da saúde como mais “em risco”, podemos erroneamente acreditar que basta evitarmos essas pessoas para reduzir nosso próprio risco. Isso agrava o isolamento afetivo desses profissionais. Esclarecendo: evitar o contato profissionais de saúde na comunidade não é uma forma efetiva de evitar a contaminação pelo COVID-19, e sim a prática do distanciamento social, higienização das mãos e objetos, não tocar a face e uso de equipamentos de proteção individual (SBP, 2020).

Os profissionais de saúde sofrem as consequências diretas da falta de informação da população, e do estado de medo generalizado que leva as pessoas a compras exageradas de medicamentos e equipamentos de higiene e proteção. Logo, essas atitudes acarretam na falta desses itens para quem de fato precisa, para eles e seus pacientes. Outro fator desgastante é lidar com a falta de informação e descrença de familiares e pessoas queridas que ainda duvidam da periculosidade da doença e se expõem a situações de risco, descumprindo o isolamento social, por exemplo.

As instituições de saúde também precisam se organizar para lidar com os ânimos de seus colabores que igualmente afetados pelo medo ou falta de informação podem acabar levando os materiais como álcool gel, luvas e máscaras para casa na tentativa de proteger os familiares e assim deixam os outros profissionais desguarnecidos.

Devemos sim fazer homenagem aos profissionais de saúde, batendo panelas por exemplo, porém se nos informamos melhor, agimos com mais consciência e oferecemos nosso acolhimento, podemos fazer muito mais diferença no cotidiano desses profissionais maravilhosos que estão arriscando sua própria saúde e segurança para cuidarem de todos nós.

 

Referência: SBP (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA) Orientações técnicas para o trabalho de psicólogas e psicólogos no contexto da crise COVID-19,  disponível em:https://www.sbponline.org.br/enfrentamento-covid19, acesso em 15 abr 2020.